domingo, 11 de agosto de 2013

Leminski

 Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
   mais do que um sonho
ou mais um poema que eu faço?












Inquieta como sua própria personalidade, a obra de Leminski, ícone da chamada contracultura no Brasil, é vasta e multifacetada. Além de poeta, Leminski foi tradutor (de James Joyce à escrita homoerótica do japonês Yukio Mishima, passando pelo latim arcaico e debochado de Petrônio, em Satyricon), romancista, colaborador de vários suplementos literários, letrista de músicas e autor de vários ensaios e biografias. Além disso, atuou como professor de História, jornalista e publicitário.
Seu primeiro romance, escrito em 1975, Catatau (prosa experimental) é, em certa medida, uma síntese do universo e das preocupações que atravessam toda a sua obra. No livro, o autor desloca o filósofo René Descartes e seu pensamento lógico para o Brasil, na época das invasões holandesas. 
O ambiente fictício abre espaço para uma espécie de delírio tropical, que nos apresenta o choque entre o pensamento mecanicista e sistemático dos europeus com as desmedidas e imprevisíveis situações que imperam nos trópicos. Tudo isso regado a uma mescla alucinante de drogas, mitos e tipos, compondo uma obra ímpar (muitas vezes comparada com Macunaíma, de Mário de Andrade), que o próprio Leminski definiu da seguinte forma: “O Catatau é o fracasso da lógica cartesiana branca no calor (...), emblema do fracasso do projeto batavo, branco, no trópico.”
Em seu trabalho biográfico, destaca-se o resgate de dois “malditos”: Cruz e Sousa, o poeta “emparedado” pelo racismo, no Brasil do século XIX e Leon Trotsky, o revolucionário russo, perseguido e assassinado pelo stalinismo, no século XX. 
Em 1985, ou seja, no final da ditadura, Leminski decidiu biografar Cruz e Sousa (1861 – 1898), exatamente por aquilo que mais profundamente marcou a vida do chamado poeta do Desterro: a sua marginalização e quase total exclusão do cenário cultural e poético brasileiro, apesar de ter sido a principal expressão do Simbolismo entre nós. Uma exclusão provocada por uma mescla de elementos com os quais o poeta curitibano certamente se identificava: o questionamento da ordem estabelecida (tanto na sociedade quanto na poesia) e uma rebeldia militante contra o sistema hipócrita em que vivia.
Posturas que também levaram o poeta a escrever Trotsky: a paixão segundo a Revolução (1986). Tendo tido contato com a organização estudantil trotskista Liberdade e Luta, no início da década de 1980, Leminski mesclou sua experiência militante e sua declarada simpatia pelo trotskismo com sua genialidade poética, dando origem a uma abordagem, no mínimo, original sobre a vida do revolucionário russo, ao utilizar os principais personagens do clássico Os irmãos Karamazov (escrito em 1879, por Dostoievsky) para discutir a vida e a obra de Trotsky e dois outros personagens fundamentais em sua trajetória: Lenin e Stalin. 
Também como parte de suas preocupações, Leminski faz um excelente resgate do pensamento trotskista sobre as relações entre arte e Revolução e a necessidade da independência da primeira, para que a segunda se realize em sua plenitude.

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